Mais de 11 milhões de brasileiros tomam remédios para dormir



Mais de 11 milhões de brasileiros (7,6% da população) usam medicamentos para dormir. O índice é um dos destaques do último volume da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), divulgado ontem pelo IBGE (realizado em 2016), e revela o mesmo percentual de pessoas em depressão. Especialistas entrevistados pelo GLOBO acreditam que existe uma relação entre estes dados.


Diretora da Associação Brasileira de Sono, Andrea Bacelar ressalta que o brasileiro dorme cada vez menos. Um adulto deveria repousar por até oito horas, segundo ela, mas descansa menos de seis. "A privação de sono gera cansaço, compromete a produtividade, aumenta a chance de acidentes e a irritabilidade", enumera. "A longo prazo, torna os indivíduos mais sujeitos a doenças como depressão, hipertensão, diabetes e obesidade". O levantamento, realizado entre pessoas com 18 anos ou mais, separou os entrevistados em três categorias: ocupados, desocupados e fora da força de trabalho, grupo formado majoritariamente por idosos, mas também por estudantes e pessoas que não estão procurando emprego. Uma em cada dez pessoas fora da força de trabalho tem diagnóstico de depressão. O mesmo registro foi realizado em 7,5% das desocupadas e em 6,2% das ocupadas. Já os medicamentos para dormir são consumidos por 12,6% dos indivíduos que não procuram emprego, 5% dos empregados e 4,3% dos desempregados.

Vulnerabilidade e outras doenças

VULNERABILIDADE A OUTRAS DOENÇAS: Os dados sobre depressão foram coletados a pedido do Ministério da Saúde. Fátima Marinho, diretora do Departamento de Doenças e Agravos Não-Transmissíveis da pasta, sublinha os efeitos do transtorno mental sobre outras enfermidades: "A depressão é uma das maiores motivadoras da perda de saúde, seu efeito sobre o sistema imunológico nos deixa vulneráveis a outras doenças", explica. "Nos últimos anos, tornou-se a principal causa de aposentadoria no Brasil, as pessoas estão deixando o mercado ainda em idade produtiva, e suas consequências também atingem o sono: os deprimidos dormem mais rápido, mas acordam no meio da noite". Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva destaca que 10,1% das mulheres entrevistadas revelaram ter depressão, o contingente é ainda maior a partir da meia idade, enquanto apenas 3% dos homens admitiram ter a doença. "A mulher, por questões hormonais, tem maior vulnerabilidade à depressão, e também costuma procurar tratamento. O homem tem preconceito" compara. "Ainda assim, a subnotificação é expressiva em ambos os gêneros, porque as pessoas acreditam que combatem seus problemas tomando medicamento para sintomas como insônia e ansiedade". O IBGE também contabilizou a ocorrência de outras doenças. De acordo com a pesquisa, 15,7% das pessoas com emprego têm hipertensão arterial, quase o dobro do número registrado entre os desempregados (8,2%). E um em cada dez ocupados afirmaram ter taxa alta de colesterol, mesmo problema declarado por 7,1% dos indivíduos desocupados. Já as dores crônicas nas costas, uma das principais causas para ausências no trabalho, afligem 16,3% dos brasileiros ocupados e 12,2% dos desocupados, segundo a pesquisa. Diretor científico da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor, Paulo Renato Fonseca diz que os problemas lombares têm relação com vários males. "Existe relação com sedentarismo, obesidade, trabalhos que exigem a força bruta por mais de dois terços do tempo", conta. "Entre os idosos, está vinculada à artrose e à perda da massa muscular". Segundo Fátima Marinho, a maior incidência de enfermidades em indivíduos ocupados, comparada à vista em desocupados, é fruto do acesso facilitado das pessoas inseridas no mercado de trabalho a exames médicos: "Nossa meta não deve ser apenas que a população viva mais. A longevidade deve ser acompanhada de qualidade de vida".


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